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  • Daniel Chiacos

Anitta Indecente: Lições de Conteúdo



Quero começar contando que eu e a galera de marketing de conteúdo éramos alguns dentre os milhares de logados no link do clipe-ao-vivo-que-nunca-começava-da-Anitta. Lá de San Diego, a amiga mais marketeira de todas, comentou: “ela bem que poderia fazer parte do nosso grupo de amigos, né?”


Mas, na verdade, antes de tudo. Antes de tudo mesmo. Quero falar que a relevância da Anitta para a galera de conteúdo é muito óbvia: ela tá ligada, tem muita coragem e uma criatividade sem fim. Sabe se relacionar, sabe ativar outras bases e educa o mercado.

Quem diria, há alguns anos atrás, que uma funkeira estaria fazendo publicidade para marcas como Renault e O Boticário?


Anitta incorpora todos os fundamentos de conteúdo.


Ponto.


Ela representa tudo o que a gente, e outras pessoas que trabalham com conteúdo, queriam que alguns clientes entendessem. Rainha do funk e do conteúdo.

Sabe aquela história de criar conversas nas redes sociais? E de contar histórias nessas conversas? E de criar expectativa para todo mundo ficar ligado na próxima vez que a bolinha do insta-stories vai estar brilhando com o novo conteúdo?


Pois é. Anitta fala. Anitta faz. Clientes, aprendam!


No novo clipe de Indecente, a gente ficou aqui, torcendo por ela. Admirando a coragem de fazer esse clipe ao vivo e em plano sequência. 10 minutos de atraso, 30 minutos de atraso, 1 hora de atraso — eis que entra o clipe.


E o resultado?


Fãs decepcionados porque, fora a espera, estava fora dos padrões de qualidade Anitta. A voz em descompasso com a dublagem. Muito escuro. Não deu pra ver. Não deu pra entender. Anitta estava insegura. O fotógrafo parece ter bebido umas caipirinhas a mais. Acabou não sendo ao vivo porque a Internet não tinha banda suficiente para subir o clipe na qualidade que ela queria. E, o Tribunal da internet prolatou a sua sentença: ficou com mais com cara de conteúdo do batom d’O Boticário do que de um clipe da Anitta.


Enfim. Mas de uma maneira ou de outra, falou-se de Anitta! Ponto pra ela, que desencanou e foi curtir o resto da festa.


Ficaram três lições para a galera de conteúdo:


1.Conteúdo ao vivo é conteúdo espontâneo. Super produção é super produção. Não dá pra misturar. São dois mundos diferentes. Como diz a minha enteada, no alto dos seus 8 anos, óleo é óleo; água é água! :) É muito mais provável que um clipe, em clima de bagunça de amigos, com o próprio celular agradasse mais do que um clipe dirigido, ensaiado e produzido.

O que me leva a uma época onde as marcas ainda se mostravam tímidas em desbravar as redes sociais. Lá por 2013, no meio das filmagens do longa Tim Maia, a Chevrolet me encomendou uma peça onde Babu Santana, ator que interpretou o músico, apresentaria uns carros do lineup novo como se fosse Tim Maia. Os produtores pediram uma peça com cara de “feito em casa”, mas incorporaram elementos de super produção — carrinho pra filmagem, audio profissional, etc. Acabou não rolando. Justamente pelo mesmo motivo. Conteúdo espontâneo é conteúdo espontâneo, super produção é super produção. Ficamos frustrados. Se fosse hoje teria feito com um celular e um Osmo Mobile 2 e teria ficado incrível.


É difícil juntar a linguagem do espontâneo com a linguagem do superproduzido sem criar uma peça Frankenstein.




2. Se é espontâneo, melhor não gerar expectativa. Vamos usar outro clipe de funk como exemplo: Mc Loma e as Gêmeas Lacração em Envolvimento — que a própria Anitta ajudou a bombar. É um clipe tão espontâneo, tão “feito em casa” — que você assiste e não coloca pressão, pois a sua expectativa é quase zero. No final, não tem decepção — pelo contrário, a gente fica até admirado da coragem que elas tiveram em ir-lá-e-fazer e torcendo para que elas bombem cada vez mais.


3. Se deu errado, faz como a Anitta. Fica feliz porque estão falando de você. Desencana e vai curtir a festa.


O mesmo serve para a onda de abaixo-assinados e gente cancelando a assinatura da Netflix dessa semana. Tem gente falando bem, gente falando mal — e a Netflix ganhou um presente: cada dia tem mais gente fazendo maratona da série “O Mecanismo”. Mas isso é assunto para outro texto.

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